Duas montanhas se erguem para o céu,
oferecidas à claridade,
como se esperassem há séculos
que o sol abandonasse o horizonte
e viesse habitar suas profundezas.
Queriam o calor por inteiro;
não apenas sobre a superfície,
mas atravessando fendas,
derretendo o gelo escondido
nas cavernas mais secretas da terra.
Um rio de suor
nascia entre os vales
e escorria lentamente ladeira abaixo,
desenhando caminhos dourados
sobre a paisagem estremecida.
Ao redor,
as copas das árvores repetiam
um movimento contínuo,
retilíneo e insistente,
curvando-se ao mesmo vento
que fazia a floresta perder o juízo.
A luz atravessava as folhas
e derramava sobre tudo
uma cor dourada —
a própria cor do pecado
quando já não deseja ser perdoado.
Aquela paisagem esbanjava beleza,
ritmo e provocação.
Cada curva parecia conhecer
a exata medida do desejo;
cada estremecimento da terra
anunciava que a tempestade
estava cada vez mais próxima.
Não havia resistência.
Havia entrega.
A natureza, inclinada diante do sol,
permitia que o calor a dominasse,
não por fraqueza,
mas pela confiança de quem escolhe
ser atravessada pela própria vontade.
Então o vento se tornou mais forte.
As árvores balançaram depressa,
o rio transbordou de suas margens
e as montanhas estremeceram
desde suas raízes.
A respiração da terra ficou curta,
entrecortada, quase selvagem.
Pedras rolaram pelas encostas.
As folhas se arrepiaram.
E um trovão abafado
rompeu o silêncio do vale.
Foi quando o sol, enfim,
alcançou o ponto mais profundo
daquela geografia secreta.
O gelo desapareceu.
A paisagem inteira se contraiu
num único e prolongado tremor,
enquanto a luz explodia
por trás das montanhas
e cobria o horizonte
com o ouro líquido do entardecer.
Depois, veio a quietude.
O vento cessou devagar.
As árvores ainda estremeciam,
como se guardassem nos galhos
a lembrança da tempestade.
E sobre as montanhas aquecidas,
o último raio permaneceu repousando —
cansado, satisfeito,
sem saber se havia conquistado a paisagem
ou se fora ela, desde o princípio,
quem o atraíra para dentro.
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