Falar de amor parece simples;
até o momento em que tentamos compreender
aquilo que sentimos.
Há ocasiões
em que o amor nos é negado.
Em outras,
ele nos alcança de maneiras
tão contraditórias
que já não sabemos distinguir
o sentimento verdadeiro
daquilo que imaginávamos ser a realidade.
Esperamos palavras
e recebemos silêncios.
Procuramos permanência
e encontramos distância.
Pedimos demonstrações
e, às vezes,
não percebemos os pequenos gestos
pelos quais alguém tentava permanecer.
É justamente aí
que nasce a complexidade.
Talvez porque o amor verdadeiro
não precise ser explicado
o tempo inteiro.
O amor não é apenas
aquilo que se declara.
Ele se manifesta na presença,
no cuidado,
na liberdade concedida ao outro
e na delicadeza de permanecer
sem aprisionar.
Não se fala de amor.
Vive-se o amor.
O problema é que nem sempre
amamos somente aquilo
que existe diante de nós.
Muitas vezes,
misturamos ao sentimento
tudo o que já carregávamos
antes do encontro:
nossos desejos,
vaidades,
sonhos,
carências,
medos
e angústias.
Criamos expectativas.
Imaginamos respostas.
Escrevemos silenciosamente uma história
e esperamos que o outro
represente o papel
que lhe destinamos.
Então,
quando a realidade não corresponde
ao que sonhamos,
acreditamos que o amor fracassou.
Mas talvez
não tenha sido o amor
que falhou.
Talvez tenha sido apenas
a imagem
que construímos dele.
Há uma diferença profunda
entre amar alguém
e amar aquilo que desejamos
que essa pessoa seja.
O amor aproxima;
a idealização aprisiona.
O amor reconhece;
a vaidade exige.
O amor permite
que o outro exista;
o desejo,
quando confundido com amor,
tenta moldá-lo
à medida das próprias ausências.
Cada ser humano carrega
uma essência individual,
original
e inalcançável por inteiro.
Há sempre uma parte
que não se entrega completamente,
não se traduz
e não se deixa habitar.
E isso não significa
ausência de amor.
Faz parte de existir.
Por mais profunda
que seja a intimidade,
ninguém atravessa completamente
o território interior
de outra pessoa.
Podemos tocar suas margens,
reconhecer seus silêncios,
compreender algumas cicatrizes
e caminhar por certos lugares
de sua alma.
Mas sempre restará
um espaço secreto,
pertencente somente a ela.
Talvez amar
seja justamente isso:
aproximar-se sem invadir,
permanecer sem possuir,
compreender sem exigir
todas as respostas
e aceitar
que o outro continuará
sendo um mistério.
Porque o amor não termina
onde começa o desconhecido.
É ali
que ele se torna verdadeiro.
Comentários