Antes mesmo de amá-la, acho que a admirei.
Havia nela uma espécie de silêncio que não afastava ninguém;
ao contrário, convidava.
Seus olhos...
não sei dizer se eram verdes emprestando a calma das matas,
ou azuis carregando o infinito do céu.
Talvez fossem ambos.
Talvez fossem da cor que a alma escolhe vestir
quando encontra outra alma disposta a ser atravessada.
Porque era isso que acontecia.
Ela olhava... e o olhar não parava nos olhos.
Nem no rosto. Nem no corpo.
Atravessava tudo.
Chegava naquele lugar onde guardamos as lembranças que nem nós mesmos visitamos.
Era impossível permanecer o mesmo depois de ser visto por ela.
Seu sorriso não fazia barulho.
Nascia devagar, como a primeira luz que desperta um campo coberto de neblina.
Nunca precisava provar felicidade.
Ela apenas acontecia no delicado desenho de seus lábios.
E sua bondade...
Ah, sua bondade.
Era como a maré numa manhã sem vento.
Não invadia.
Não exigia.
Apenas chegava, tocava a areia cansada e voltava,
deixando o mundo um pouco mais limpo do que havia encontrado.
Ela observava tudo.
Os gestos que ninguém via.
As palavras escondidas entre uma respiração e outra.
Os silêncios.
Meses depois, lembrava-se da frase exata,
do instante preciso, da emoção que alguém tentou esconder atrás de um sorriso qualquer.
Algumas pessoas enxergam.
Ela compreendia.
E como gostava das histórias...
Contava cada lembrança como quem acende uma fogueira numa noite fria.
E ouvia...
Com a rara generosidade de quem não espera a própria vez de falar.
Enquanto o mundo escutava para responder,
ela escutava para compreender.
Seu toque...
Ainda hoje, quando fecho os olhos, parece existir.
Leve.
Como uma pétala que pousa sobre a água sem romper sua superfície.
Macio como nuvens de verão deslizando preguiçosas sobre o azul da tarde.
Sua pele guardava a delicadeza das coisas que Deus parece criar sem nenhuma pressa.
O tempo seguiu seu caminho.
Levou sua presença, levou sua voz, levou seus passos.
Mas falhou na única missão que acreditava ser capaz de cumprir.
Não conseguiu levá-la de dentro de mim.
Porque existem pessoas que deixam de caminhar ao nosso lado,
mas continuam caminhando dentro da memória.
E talvez seja esse o destino dos grandes amores:
não permanecerem em nossas mãos...
mas transformarem para sempre a forma como nosso coração aprende a reconhecer a beleza quando ela,
um dia, resolve novamente cruzar o nosso caminho
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