Dizem que era apenas uma calopsita.
De penas claras,
bochechas coradas como o primeiro rubor da manhã,
olhos inquietos e um canto tão vivo
que fazia o silêncio mudar de lugar.
Muita gente parava,
encantada, imaginando levá-la,
sonhando em ter aquele canto só para si.
Mas ela já tinha um lar.
Não de grades, mas de escolha.
Sabia exatamente onde pousava quando o entardecer chegava.
Ainda assim, havia momentos em que ela se achegava devagar,
inclinava a cabeça e pedia um cafuné,
como se confiança fosse uma palavra sem som.
Depois subia no dedo,
leve, mas deixava um peso doce no peito,
como se o céu inteiro coubesse naquele gesto.
E quem um dia sentiu o calor das patinhas
sobre o dedo ou o pedido manso de um carinho,
esse alguém nunca mais ouviu silêncio do mesmo jeito.
Porque há cantos que,
mesmo distantes,
não param de morar dentro da gente.
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