Entre Taças e Asas
Entre nós,
o silêncio nunca foi vazio.
Ele fermenta,
como o vinho que descansa
antes de incendiar a boca.
Teu olhar pousa em mim
como pássaro que conhece o ninho
mas escolhe voar —
liberdade não é partir,
é voltar porque quer.
Minhas mãos aprendem o mapa
sem pedir permissão,
deslizam como quem decifra um segredo
escrito na pele com tinta invisível.
A taça se inclina…
o vinho escorre lento,
avermelhado, quente,
e não se sabe
se molha os lábios
ou provoca a sede.
Teu corpo entende de vento,
abre asas quando eu chego perto,
e no bater ritmado
há um convite:
voar não é fugir,
é perder o chão junto.
Nada é dito.
Tudo é sentido.
O prazer mora exatamente aí —
no quase,
no agora,
no instante em que o pássaro
fecha as asas e decide ficar.
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