A madrugada ainda repousava sobre o jardim
quando a primeira luz atravessou o silêncio.

Não chegou como incêndio,
nem como quem invade uma morada.

Veio devagar,
deslizando entre folhas adormecidas,
até encontrar uma flor
que ainda guardava a noite entre as pétalas.

O orvalho tremia sobre ela
como uma lembrança prestes a cair.

E o vento, quase sem respirar,
esperou que alguma coisa despertasse.

Mas a flor hesitou.

Conhecia o peso das tempestades,
as mãos apressadas do tempo
e o frio de amanhecer
sem saber o que a manhã levaria.

Então a aurora se aproximou.
Não arrancou suas pétalas,
não exigiu que ela florescesse.
Apenas encostou luz
onde a noite havia deixado medo.

E aquele toque,
tão leve que poderia ser confundido com desejo,
percorreu lentamente suas margens,
aqueceu seus segredos
e devolveu perfume ao que permanecia fechado.

A flor respirou.

Abriu-se sem pressa,
como quem permite ao mundo entrar
sem abandonar aquilo que é.

E quando o sol finalmente nasceu,
ninguém soube dizer
se era a manhã que florescia no jardim
ou se era a flor
que acendia o céu.

Talvez renascer seja isso:

não esquecer a noite,
mas permitir que uma nova luz
toque, com ternura,
os lugares que ainda doem.