O sol nasceu atrás de uma árvore morta.
E, por um instante,
a vida e a morte dividiram o mesmo horizonte.
De um lado,
a luz chegava devagar,
rasgando a madrugada,
como quem anuncia que o mundo
ainda tem futuros por estrear.
Do outro,
uma árvore permanecia imóvel.
Seca.
Silenciosa.
Quase esquecida pelo tempo.
Mas ela nem sempre foi assim.
Houve primaveras em seus galhos.
Houve folhas dançando ao vento,
flores abrindo sem medo
e frutos amadurecendo sob esse mesmo céu.
Pássaros fizeram morada em seus braços.
Chuvas escorreram por seu tronco.
Tempestades tentaram derrubá-la.
E ela ficou.
Sobreviveu ao vento,
à seca,
aos temporais
e aos muitos invernos que juraram ser os últimos.
Até que um dia
não houve mais folhas.
Nem flores.
Nem frutos.
Restaram apenas os galhos nus,
como mãos antigas estendidas para o céu,
guardando a memória
de tudo aquilo que um dia tocaram.
Então o sol nasceu.
Talvez para alguém,
naquele exato instante,
fosse o primeiro.
O primeiro choro.
O primeiro abraço.
A primeira respiração de uma vida inteira
ainda esperando para acontecer.
Enquanto, para outro,
talvez fosse o último.
E há algo profundamente belo e cruel nisso:
o mundo não interrompe seus amanheceres
para respeitar nossas despedidas.
Enquanto alguém chega,
alguém parte.
Enquanto uma mão pequena
se fecha pela primeira vez procurando outra mão,
uma mão cansada
talvez esteja aprendendo a soltá-la.
Somos assim.
Em algum momento, fomos sol nascente:
promessa, possibilidade, futuro.
Depois fomos árvore.
Criamos raízes.
Florescemos.
Demos sombra.
Frutos.
Abrigo.
Perdemos folhas.
Sobrevivemos a tempestades.
Até que, lentamente,
começamos a pertencer mais às lembranças
do que aos amanhãs.
E talvez morrer não seja exatamente
o contrário de nascer.
Talvez sejam apenas
as duas extremidades da mesma estrada.
Porque quando o nosso último sol chegar,
ele continuará nascendo.
Não mais para nós.
Mas para alguém.
E enquanto nossos galhos permanecerem
desenhados contra o horizonte,
talvez alguma coisa de nós ainda fique:
na sombra que um dia oferecemos,
nos frutos que deixamos,
nas raízes que aprofundamos
e na memória daqueles
que descansaram debaixo de nós.
Porque todo amanhecer carrega uma despedida,
e toda despedida acontece diante de um mundo
que, teimosamente, continua amanhecendo
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