Talvez porque soubesse que certas luzes
não foram feitas para iluminar;
foram feitas para provocar marés.
Gostava também do vinho,
do rubro repousando lentamente na taça,
do primeiro gole aquecendo a boca
e daquele silêncio que vem depois,
quando os olhos começam a dizer
o que os lábios ainda fingem esconder.
Gostava de mãos dadas.
Mas havia algo perigoso na maneira
como entrelaçava os dedos:
não parecia segurar uma mão,
parecia impedir uma fuga.
E então vinha o abraço.
Demorado.
Quente o bastante para confundir
onde terminava um corpo
e começava o outro.
Mas seu verdadeiro pecado eram os olhos.
Ela olhava sem pressa,
fixa, profunda,
como quem atravessa portas fechadas
sem precisar tocar a maçaneta.
Aqueles olhos não contemplavam.
Entravam.
Rasgavam delicadamente a alma,
revolviam a terra mais escondida
e ali plantavam desejo.
Depois regavam tudo com vinho,
luar e proximidade.
Até nascer aquela vontade absurda
de permanecer mais cinco minutos.
Só mais um abraço.
Só mais um olhar.
Só mais um pouco dela.
E justamente quando o coração
já havia desaprendido a bater devagar,
ela fazia aquilo que sabia fazer melhor:
ia embora.
Sem espetáculo.
Sem promessas.
Quase sem despedida.
Deixava apenas o perfume no ar,
o calor ainda preso à pele
e aquela plantação clandestina crescendo no peito.
Então você finalmente entendia
por que ela gostava tanto da lua:
ela também sabia desaparecer
e, ainda assim,
continuar puxando todas as marés
de quem ficou.
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