No fim da noite,
quando a madrugada se derrama devagar sobre o mundo
e o silêncio repousa nas ruas,
nas janelas apagadas
e nos corpos vencidos pelo dia,
os pensamentos enfim se libertam.
Viajam sem pedir licença.
Atravessam lembranças,
acariciam ausências,
tocam nomes que o tempo jamais conseguiu apagar.
É nesse instante
que descobrimos
que desejar
talvez seja uma das formas mais antigas de filosofar.
O silêncio parece absoluto.
Mas apenas parece.
Porque, dentro do peito,
há um fogo discreto
que não conhece o sono.
A mente insiste em compreender o universo.
Procura respostas nas estrelas,
mede distâncias impossíveis,
imagina o infinito
como quem acredita que todo mistério pode ser resolvido.
O corpo, porém,
é infinitamente mais sábio.
Ele conhece uma única verdade,
simples e incontestável:
há presenças
que nunca foram feitas para a distância.
Talvez o desejo seja exatamente isso...
Uma filosofia silenciosa da pele.
Um pensamento aquecido pela saudade.
Uma linguagem que a razão tenta traduzir,
mas que somente o coração é capaz de compreender.
Porque existem pessoas
que continuam habitando em nós
mesmo quando estão longe.
E há noites
em que nenhuma estrela,
nenhuma teoria
e nenhum pedaço do infinito
é capaz de distraí-las.
Assim, enquanto a madrugada se alonga
e o mundo permanece imóvel,
meu pensamento percorre galáxias,
atravessa constelações
e contempla a imensidão do cosmos.
Mas meu desejo...
esse é mais antigo que qualquer estrela
e mais teimoso que o próprio destino.
Ele conhece apenas um caminho.
Depois de percorrer todo o universo,
sempre encontra o mesmo lugar:
você.
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